De acordo com a FIFA, cerca de 1.5 bilhão de pessoas assistiram a final entre Argentina e França na Copa do Mundo do Catar, no ano de 2022.
O impacto cultural do torneio é resultado da sua capacidade única de conectar bilhões de pessoas em torno da experiência de acompanhar o futebol.
Há poucos eventos globais com tamanha convergência de atenção coletiva. Durante um mês, parece que o planeta simplesmente para.
Em entrevista à FIFA, o ex-jogador e campeão mundial Dunga destacou justamente esse caráter universal da competição.
“A Copa do Mundo quebra barreiras culturais. Você vai à uma Copa e sente uma felicidade ao ver pessoas do mundo inteiro, de diferentes religões, níveis de educação e origens.”
A força da Copa está exatamente aí: a capacidade de unir culturas completamente distintas ao redor do futebol.
Isso faz com que tendências surjam, se espalhem e se consolidem em uma velocidade incomum.
O torneio é um grande laboratório global, onde comportamento, consumo, entretenimento e identidade se encontram de um jeto único.
Veja o histórico completo das copas e como elas mudaram o mundo.
De 1930 a 1950: rádio, identidade nacional e primeiros mitos
Nas primeiras décadas da Copa do Mundo, o alcance do torneio era muito limitado pela tecnologia, mas nem por isso foi um impacto cultural pequeno.
Pelo contrário: foi nessa época que se estabeleceram as bases da relação entre futebol, mídia e identidade nacional que a gente vê até hoje.
O rádio era o principal meio, com uma importância gigantesca. Os locutores não só descreviam o lance, mas criavam emoção e tensão dramática.
Isso ajudou muito a consolidar o futebol como uma experiência coletiva, mesmo para quem estava muito longe do estádio.
Guerras, política e interrupções histórica
A Copa do Mundo nasceu em um período entre guerras, sendo rapidamente impactada por elas.
As edições de 1942 e 1946 foram canceladas por conta da Segunda Guerra Mundial, mostrando como o futebol era parte da tensão da época.
Mesmo antes disso, já havia relacionamento claro entre polítiva e futebol.
A Copa de 1934, realizada na Itália sob o regime de Benito Mussoline, é um grande exemplo de uso do esporte para propaganda política.
Jogadores da Itália fazem saudação fascista antes da final da Copa de 1934. Foto: Agência AP.
A vitória italiana foi um símbolo de força nacional.
Além disso, as rivalidades europeias estavam à flor da pele. Os jogos entre seleções iam muito além do esporte.
A popularização do futebol e os primeiros ídolos mundiais
Mesmo com limitações tecnológias, o futebol começou a se popularizar bem rápido.
Nos primeiros anos, já surgiram os primeiros grandes ídolos, como José Leandro Andrade e Giuseppe Meazza, símbolos da Itália.
Ainda que não existisse o conceito de celebridade global, esses jogadores já eram bem conhecidos no mundo.
O Brasil: divisões internas e a noção de identidade
Na Copa de 1930, no Uruguai, o Brasil enfrentava disputadas entre as federações paulista e carioca.
Como resultado, jogadores paulistas não participaram do torneio, enfraquecendo a seleção.
A cobertura da imprensa também era refletia pelas divisões. Jornais tinham forte caráter regional, e o conceito de “Seleção Brasileira” não existia.
O “Maracanazo”
O ponto de virada foi a final de 1950, disputada no Estádio do Maracanã.
Com um público de 200 mil pessoas (uma verdadeira bizarrice na Copa do Mundo), o Brasil precisava apenas de um empate pra ser campeão.

Manchete de jornal após o Maracanazo, em 1950. Foto: Jornal O Globo.
A derrota por 2×1 ficou conhecida como Maracanazo, impactando um país inteiro.
O goleiro Barbosa, por exemplo, carregou por toda a vida o peso simbólico da derrota, evidenciando que a Copa já criava heróis e vilões.
Já estava pronto: a Copa como parte da cultura popular. É um palco para projetar expectativas, frustrações e todo o coletivo.
De 1950 a 1970: televisão e o mundo das imagens
A partir de 1950, a Copa do Mundo da FIFA entrou em uma nova fase.
Se o rádio já era capaz de criar imagens na cabeça do torcedor, a televisão passou a mostrá-las para o mundo.
A Copa deixou de ser narrada e passou a ser um espetáculo visual, alcançando milhões de pessoas de forma simultânea.
A edição de 1954, da Suíça, foi a primeira a contar com transmissões televisivas mais estruturadas para o público europeu.
Pela primeira vez, o público podia ver com os próprios olhos o que antes só imaginava.
Pelé e o ícone mundial
Com apenas 17 anos de idade, Pelé se tornou um dos primeiros atletas verdadeiramente globais.
Mais do que um jogador, Pelé virou um símbolo, aparecendo em campanhas publicitárias, capas de revistas e programas de TV.
A figura de Pelé ajudou a consolidar o atleta como uma celebridade. Isso hoje parece comum, mas era uma novidade.
1966 e a consolidação da TV
A Copa de 1966 foi a primeira a ter uma identidade visual mais estruturada, com mascote e estratégia de comunicação.
Além disso, a transmissão televisiva já atingia mais países, criando o alcance global do campeonato.
Estima-se que a final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental tenha sido acompanhada por mais de 400 milhões de pessoas.
1970: a revolução das cores e o futebol como arte
A Copa do México em 1970 foi a primeira transmitida em cores, representando uma grande evolução estética.
O esporte deixou de ser movimento e passou a ser imagem, cor e estilo.
A Seleção Brasileira, com Pelé, Jairzinho e Tostão, tornou-se um dos maiores símbolos culturais da história do esporte.
O uniforme amarelo, combinado com futebol ofensivo e criativo, criou uma identidade visual poderosa.
Não era só um time campeão, mas sim a representação estétia do jogo bonito, com a final tendo a audiência estimada já de 600 milhões de pessoas.
Pela primeira vez, diferentes continentes assistiram ao espetáculo ao mesmo tempo, uma experiência inédita.
Publicidade e o nascimento do marketing esportivo
O crescimento da audiência chamou a atenção das marcas, estruturando uma relação entre Copa do Mundo e publicidade na TV.
As empresas começaram a perceber que o torneio era uma vitrine única para alcançar milhões de pessoas em diferentes países.
Propagandas no campo surgiram apenas na Copa de 1966, bem diferente do que vemos hoje em dia. Foto: Reprodução.
O modelo de patrocínio não era tão sofisticado, mas já contava com inserções comerciais estratégicas e associações de marcas com jogadores.
A Copa não era mais um evento esportivo, mas uma forma de comunicação mundial.
Cultura pop, imagem e memória coletiva
Com a TV, a Copa passou a produzir imagens que ficavam na memória do mundo.
Gols, comemorações e momentos icônicos começaram a ser revisitados, reprisados e discutidos, construindo uma narrativa que o torneio durava sempre, e não só de 4 em 4 anos.
Além disso, os jogadores (agora com os rostos exibidos na televisão) viraram grandes ícones.
Foto de divulgação publicitária de Pelé na época de 1970, estabelecendo a força do marketing esportivo. Foto: eBay.
O futebol deixou de ser apenas desempenho em campo, mas também imagem.
De 1970 a 1990: marketing, música e cultura de massa
A partir de 1970, a Copa virou referência de cultura e entretenimento.
1974: o início da Copa como produto do mundo
A Copa de 1974, na Alemanha Ocidental, marcou o ponto de virada da FIFA.
A criação de patrocínios mais organizados e a padronização de direitos de transmissão abriram caminho para o modelo de negócio que dura até hoje.
Além disso, o conceito de identidade visual ganhou força, com logotipos, materiais gráficos e a própria forma de apresentar o evento.
FIFA cria logo e marca para a Copa de 1974, transformando o torneio em um produto comercial global. Foto: Divulgação.
Isso foi para outros eventos mundiais, que passaram a adotar práticas semelhantes.
Maradona e o nascimento do atleta como fenômeno cultural total
Na Copa de 1986, Diego Armando Maradona pratagonizou um dos momentos mais emblemáticos do esporte: o gol conhecido como “Mão de Deus”.
No mesmo jogo, marcou também o Gol do Século, ambos contra a Inglaterra.
Apenas quatro anos após a Guerra das Maldivas, o jogo ganhou o significado que ultrapassava o futebol.
A atuação de Maradona tornou-se uma revanche simbólica, mostrando como a Copa poderia ser usada pra isso.
Copa de 1986 transforma Maradona em um icone mundial. Foto: Foto: Carlo Fumagalli/AP/Arquivo.
Maradona virou tema de musicas, estampas, reportagens e discussões em todo o mundo.
A música como linguagem da Copa
Foi também entre 1970 e 1990 que a música passou a ser parte essencial da Copa.
Por mais que o Mundial de 1978 na Argentina já tivesse suas canções, foi na Itália que isso virou moda.
A música “Un’estate italiana”, interpretada por Gianna Nannini e Edoardo Bennato, tornou-se um sucesso internacional.
A Copa influenciando publicidade e consumo
Durante o período, a Copa começou a ditar o ritmo do mercado publicitário.
As marcas começaram a planejar campanhas mundiais com base no torneio, e não o contrário, sendo um calendário fixo para lançamentos.
Empresas como Adidas e Coca-Cola ampliaram a presença global associando-se ao futebol da Copa do Mundo.
Já nos anos 1990, Coca-Cola e FIFA começam a estreitar relações, uma parceria comercial que perdura fortemente até hoje. Foto: Divulgação.
Produtos oficiais como álbuns de figurinhas, camisas e itens colecionáveis se tornaram parte da experiência da Copa.
Cultura pop: o futebol como linguagem
O futebol deixou de ser apenas um tema, mas uma linguagem dentro da cultura pop.
Referências à Copa começaram a aparecer em filmes, séries, músicas e até em quadrinhos.
A estrutura narrativa de vilões, heróis e drama passou a influenciar o mundo inteiro, popularizando expressões e símbolos.
Em 1990, estima-se que mais de 2 bilhões de pessoas tenham assistido a pelo menos um jogo.
De 1990 a 200: globalização, marcas e ídolos midiáticos
A partir de 1990, a Copa era um produto cultural pensado para o mundo inteiro, moldando o comportamento das pessoas.
A Copa de 1994 é um grande marco. Foi o primeiro mundial realizado em um país onde o futebol não era o esporte mais popular.
O resultado foi uma média histórica de 68 mil pessoas por jogo, um modelo de entretenimento forte.
O movimento do jogador como marca global
É nesse cenário que surgem figuras como Ronaldo Nazário e David Beckham, representando uma virada importante: o jogador vira uma marca global.
Ronaldo virou símbolo de performance e de narrativa heróica, cercado de mistérios após a final contra a França.
Já Beckham levou isso para outro nível: campanhas de moda, capas de revista e relacionamento com celebridades.
A Copa não apenas revelava esses jogadores: ela os amplificava.
O torneio virou a principal plataforma de construção de celebridades mundiais fora do eixo tradicional do cinema e da música.
1998 e a Copa no mundo todo
A Copa de 1998, na França, simboliza o auge dessa integração entre esporte, cultura e entretenimento.
A audiência mundial passou dos 30 bilhões de expectadores, somadas todas as transmissões do torneio.
Imagem de Ronaldo com as chuteiras da Nike após a final da Copa de 1998 é um dos grandes marcos da relação de marcas com jogadores de futebol, moldando toda a era Total 90. Foto: Getty Images.
Foi também nesse período que a música da Copa virou totalmente mundial, tocando em rádios, canais de TV e eventos muito além do futebol.
Videogames e a entrada na cultura digital
A popularização dos videogames de futebol, como FIFA International Soccer, em 1993, foram muito importantes para o público jovem.
Jogo de videogame da FIFA torna-se um grande pioneiro do início da cultura dos games de futebol. Foto: Divulgação.
Os jogos ajudavam a expandir o tamanho da Copa, com a vivência do torneio também no ambiente digital.
De 2000 a 2010: internet, viral e digital
A internet mudou ainda mais o jogo, deixando de ser um evento consumido de forma passiva para de modo interativo.
O público pode assistir, comentar, compartilhar e criar em cima.
2010: o auge da Copa no digital
A Copa de 2010 marcou-se como o primeiro mundial totalmente inserido na lógica das redes sociais.
A audiência entre Espanha e Holanda ultrapassou os 900 milhões de pessoas, com um impacto muito além da TV.
A música “Waka Waka”, de Shakira, tornou-se um fenômeno global massivo.
Música de Shakaria Waka Waka (This Time for Africa) é seguramente a música de copa mais famosa da história. Foto: Reprodução Youtube.
O clipe ultrapassou bilhões de views ao longo dos anos, mostrando como a Copa dita tendências em escala digital.
A lógica viral
Gols, erros, comemorações e momentos inusitados passam a circular rapidamente na internet.
Um lance não fica só na transmissão ao vivo, é recortado, compartilhado e reinterpretado.
Cada torcedor começou a ter sua própria narrativa a partir de vídeos, comentários e conteúdos.
De 2010 pra cá: redes sociais, memes e cultura participativa
Desde 2010, a Copa passou a ser moldada diretamente pelo público.
Com a consolidação de plataformas como Twitter, Instagram e TikTok, o torcedor se tornou produtor de conteúdo.
A Copa de 2014 é o grande marco dessa transformação, gerando um volume enorme de interações.
O 7×1 e o meme global
A derrota do Brasil por 7×1 para a Alemanha é talvez o maior exemplo de como a Copa molda a cultura.
O episódio rapidamente virou um meme global, recolocado em vários contextos.
Derrota da Seleção por 7×1 tornou-se um dos principais memes da história da internet brasileira. Foto: Reprodução FIFA.
Não era apenas futebol, mas sim toda uma expressão usada para diferentes países e situações.
Marketing em tempo real
As marcas também se adaptam, com campanhas reativas.
Empresas respondem a lances, memes e acontecimentos em tempo real, participando ativamente da cultura da Copa.
Moda, comportamento e consumo ao longo dos anos
A Copa influenciou e influencia diretamente a forma como as pessoas se vestem, consomem e se comportam.
Camisas de seleções tornaram-se peças culturais, usadas fora do contexto esportivo.
O corte de cabelo de Ronaldo na final da Copa de 2002 tornou-se um dos grandes marcos estéticos dos mundiais. Foto: Reprodução.
Jogadores ditam tendências estéticas há décadas, com cortes de cabelo, estilos e até as próprias comemorações.
O consumo também é impactado. Durante a Copa, há picos significativos de venda de TVs, alimentos, bebidas e produtos licenciados.
Conclusão: um legado contínuo
A influência da Copa do Mundo na cultura pop é cumulativa: cada década adiciona uma nova camada.
Do rádio às redes sociais, o torneio não apenas acompanhou as tendências do mundo, mas ajudou a criá-las.
Mais do que um evento esportivo, a Copa é uma das maiores forças culturais do planeta.


